Nesta terça (29/11), Emmanuel Macron chega a Washington, sendo o único presidente francês a fazer duas visitas oficiais aos Estados Unidos, desde Charles de Gaulle, e o primeiro convidado de Joe Biden para um jantar de Estado na Casa Branca. A visita tem uma pauta ambiciosa e pretende que as duas nações fiquem em sintonia quanto a questões estratégicas e econômicas importantes, especialmente em tempos de guerra na Ucrânia, crise energética, possível recessão e um alinhamento da Rússia com a China.

A segunda visita de Estado do presidente francês à capital americana acontece em um contexto muito diferente daquele de 2018. A realidade atual é de um mundo pós-pandemia, guerra na Europa, possível recessão e uma China ainda mais poderosa e alinhada à Rússia.

Em 2018, Macron tentava se estabelecer como o principal líder europeu, ocupando o lugar que antes era da chanceler alemã, Angela Merkel. Para isso, ele tentou criar uma amizade com Donald Trump, chegando até a ser chamado de “domador de Trump”, lembrando que os dois tinham um background parecido, pois vinham do mundo de negócios. De certo modo, Trump e Macron falavam a mesma língua pragmática na defesa dos interesses das suas nações. Mas a Casa Branca agora é ocupada por um político de carreira.

Joe Biden atua em Washington há cerca de meio século e Macron vai precisar mais de uma forte estratégia política para lidar com o presidente americano do que charme pessoal. Apesar de Biden ter prometido fortalecer a imagem dos EUA perante seus aliados, a visita de Macron acontece um ano depois da tensão entre a França e os Estados Unidos por causa de uma aliança americana com a Austrália e o Reino Unido, conhecida como AUKUS, que custou a Paris um valioso contrato para a compra de submarinos por parte de Canberra.

 

Economia e mercado

Uma questão-chave é a Lei de Redução da Inflação (Inflation Reduction Act – IRA) promulgada por Biden em agosto deste ano e que é considerada inaceitável pelos europeus por seu caráter protecionista que acreditam que prejudica a economia europeia. Macron vai ser o primeiro chefe de Estado europeu a discutir isso com Biden. Ele deve pedir isenções para as empresas europeias, parecidas com as já concedidas ao Canadá e México.

É muito importante que Biden e Macron resolvam esse atrito e evitem qualquer risco de confronto comercial entre Europa e EUA, especialmente em tempos de guerra e possível formação de novas parcerias. Mas não há garantia de que Biden vá atender aos apelos de Macron, pois protecionismo é uma marca da política dos democratas, e pode resultar em sucesso nas urnas. O governo americano afirma que a lei é vantajosa também para a economia europeia, pois traz “enormes oportunidades” em energia verde.

 

Crise energética 

Outra questão que será discutida pelos dois chefes de Estado é a escassez energética, que pode levar a um difícil inverno europeu. A França reclama que os europeus pagam um preço muito alto pelo gás natural líquido (GNL) dos EUA, um valor que pode chegar a ser quatro vezes mais alto que o que o consumidor americano paga. “Há notícias de que os EUA estão lucrando ao fornecer GNL para a Europa. Isso não é verdade”, afirmou nessa segunda (28) um funcionário sênior do governo americano em uma conversa telefônica com a imprensa sobre a visita do presidente francês.

Clima e energia verde também estão na pauta. Nessa quarta (29) haverá uma discussão sobre cooperação nuclear entre ministros e principais atores do setor. Isso pode resultar em acordos importantes e definir a estratégia francesa quanto à energia. A Alemanha vai estar antenada para isso, pois é um tópico que pode ser fonte de tensão entre Paris e Berlin.

Também nessa quarta, a vice-presidente Kamala Harris vai liderar discussões sobre domínio espacial. É possível que já comece a ser traçado um caminho para uma agenda bilateral entre EUA e União Europeia quanto a essa questão de enorme importância estratégica. A China tem avançado nesse sentido e o que está em jogo é crucial, pois grande parte da vida na Terra depende de satélites.

Mas a questão mais imediata da pauta a ser discutida entre os chefes de Estado de duas das nações com mais armas nuclear do mundo – EUA e França ocupam os 2º e 4º lugares, respectivamente; Rússia e China ocupam os 1º e 3º lugares, respectivamente – é a invasão da Rússia na Ucrânia e suas implicações.

 

Guerra e consequências

A guerra na Ucrânia mostrou a importância de conter uma Rússia agressiva. Também expôs que há um certo perigo na Europa contar demais com os EUA para garantir sua própria segurança. Os países europeus estão com baixos estoques militares e um orçamento limitado. Apesar de quererem apoiar Kiev, até outubro, os europeus só contribuíram com € 11 bilhões dos € 39 bilhões direcionados às forças militares ucranianas, segundo dados do Instituto Kiehl. Os outros € 28 bilhões vieram de Washington.

Biden precisa ser cuidadoso ao lidar com a guerra para não dar a impressão de que talvez a Ucrânia esteja sendo usada em um velho jogo de força mal resolvido entre EUA e Rússia. Neste inverno, europeus podem cansar de ter de pagar um preço tão alto por essa disputa. Além disso, o foco da defesa europeia é agora a Ucrânia, ao passo que a questão do terrorismo no Oriente Médio e na África, que é uma das maiores preocupações de segurança da França, não é mais uma prioridade.

Ao mesmo tempo que a invasão russa reforçou a aliança transatlântica e a importância da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), também ficou claro para os europeus que os EUA precisam começar a apoiar uma maior autonomia europeia em questões de segurança. Especialmente no que diz respeito à compra de equipamento militar sem envolver o complexo industrial militar americano.

Macron tem um trunfo para negociar com Biden. Afinal, a Casa Branca gostaria de poder contar com o apoio da França às suas políticas quanto a Pequim, especialmente no caso de uma invasão de Taiwan pela China, algo que parece cada vez mais provável de acontecer.

 

Agenda

A agenda do presidente francês a Washington começa nessa quarta (30/11) com uma coletiva de imprensa. Mais tarde Macron fará um pronunciamento para a comunidade francesa da capital americana que será seguido por um jantar privado com Biden e as duas primeiras-damas, Brigitte Macron e Jill Biden.

A visita oficial acontecerá na quinta (01/12) com cerimônias militares na Casa Branca, coletiva de imprensa, reunião no departamento de Estado com o secretário Antony Blinken e Harris, além de uma reunião no Congresso. O dia será encerrado com um jantar de Estado na Casa Branca.

Na sexta (02/12), Macron vai à Nova Orleans para uma reunião com o governador da Louisiana, John Bel Edwards, sobre questões climáticas. Desde 2018, a Louisiana é um estado observador da Organização Internacional da Francofonia.

 

Fonte: Opera Mundi
Foto: Official White House Photo/Adam Schultz