Pouco mais de 500 quilômetros separam a capital gaúcha e o Chuí, no extremo Sul do Brasil. Se comparado ao resto da costa, dá para dizer que é nesse trecho que o país mingua. Ficaram para trás, afinal, a exuberância da Amazônia, as dunas do Nordeste, as montanhas verdinhas que invadem o mar do Sudeste, as praias cheias de bossa do Sul. Mas essa porção derradeira do nosso território guarda uma beleza de outra natureza. O cenário urbano de Porto Alegre vai dando lugar à tranquilidade do horizonte plano e pleno do pampa e da maior praia do mundo, que vai da Lagoa dos Patos até Arroyo.

Tais cenas habitam as memórias da gaúcha Tainá Müller, curadora convidada da temporada Brasileiro: olhares sobre os sabores, saberes e belezas do país, de Nossa. Quando as filhas eram meninas, Eduardo Santos, pai da atriz, colocava a família no carro e saía cedinho rumo à Reserva do Taim, na divisa do Uruguai. “É uma vasta estação ecológica que recebeu o nome de Pantanal Gaúcho pois tem mais de 230 espécies de animais”, disse na mensagem que escreveu à filha com as coordenadas do roteiro. Em um fim de semana de abril, o repórter fotográfico Carlos Macedo refez os passos da família. O resultado desta road trip você confere a seguir.

Interpretar as memórias de infância de Tainá Muller foi como assistir a um filme gravado pela janela do carro. A viagem começou quando as quatro torres da antiga Ponte do Guaíba cresceram diante dos meus olhos. Do lado de lá do rio, 529 quilômetros adiante rumo ao sul do estado, me aguardava o grande Farol da Barra do Chuí, bem onde finda (ou começa) o Brasil.

O olhar é passageiro. A paisagem acena. Para ela são todos amigos íntimos. Parece cenário de filme nostálgico, daqueles contemplativos: a borracharia com carro velho na frente, o motel longe da cidade, o andarilho de bicicleta, alguém esperando na parada de ônibus, a carroça no acostamento, a persona enraizada na sua terra, a figueira no meio do nada, ruínas esculpidas pelo tempo.

De trecho em trecho, contemplo “obras de arte” criadas pela natureza. Nascem árvores dentro de casas esquecidas, solitários casebres surgem no meio das planícies. Da janela do carro montei a película de um filme, cena por cena.

Na estrada, sempre tem alguém indo ou vindo. Todos se cruzam. O pedreiro Dauri Silveira, 50 anos, saiu de Guaíba ainda na madrugada e foi pilotando a bicicleta movida a gasolina até o município de Cristal. Quatro horas de viagem e 160 quilômetros de distância para visitar o pai e a irmã. Na bagagem, uma muda de roupa, dois litros de gasolina reserva e um pedaço de carne de galinha para o lanche.

“Sou um viajante, trabalho toda semana pra poder pegar a estrada no sábado. Ainda quero ir de bicicleta até Rio Grande. Vai ser bom”


Enquanto Dauri planeja as próximas andanças, o morador da Barra do Ribeiro João Jorge Boneberg, 72 anos, só quer levar o cavalo para pastar. O Uruguai ele só conhece por foto. Talvez vá até lá um dia, de tanto a filha insistir.

“Nasci e me criei aqui. Tu pode sair e deixar a casa aberta. A cidade é pacata. Tem gente que passa aqui e atravessa o mundo. Outro dia, um casal norueguês ficou acampado na beira do rio. Nem se entendia direito o que eles falavam”

O asfalto é o intruso urbano que atravessa os longos campos abertos de paisagem pastoril, que ocupa dois terços do território gaúcho. Desde Porto Alegre, a primeira parte do caminho, pela BR-116, se estende por Eldorado do Sul, Guaíba, Barra do Ribeiro, Tapes, Camaquã, Cristal, São Lourenço do Sul, Turuçu e Pelotas. A partir daí o trecho avança pela BR-471, passando Rio Grande e Santa Vitória do Palmar. Considero que é o ponto alto da viagem. Isso porque são longos quilômetros às margens da Reserva do Taim, uma das principais áreas ambientais do mundo.

É possível descer do carro (com segurança) e ver bem de perto jacarés, aves e capivaras. O melhor horário para a travessia é entre 16 e 18 horas, quando o sol preenche a vegetação com uma linda luz alaranjada. Para quem não se contenta com a paisagem na beira da rodovia, a aventura pode ser maior. Extensas estradas de chão, em direção às lagoas Mirim e Mangueira, levam a trilhas que adentram na mata.

Quando o céu e o campo se encontram no horizonte, posto o sol como mensageiro do fim do dia, percebo que o destino nem é tão longe assim. A paisagem tem, agora, um verde dourado. Dá vontade de ir caminhando devagar e quase parando pelo último trecho, entre Santa Vitória do Palmar e o Chuí.

Pelas cercanias do pampa, avante em cada paragem, o campo sulino faz um autorretrato. Porque não sou eu, um mirante do olhar, o personagem dessa caminhada. É o bioma, que abrange parte do território do Rio Grande do Sul – são cerca de 170 mil quilômetros quadrados – e adentra por terras do Uruguai e da Argentina.

Agora, com os estabelecimentos fechados, a praia da Barra do Chuí se torna refúgio para aqueles que querem fugir da cidade em tempos pandêmicos. Alguns gostam de pescar no canal dos molhes que divide Brasil e Uruguai. Ficam pequeninos diante do farol, a maior construção do extremo sul do Estado. Para outros, é ponto de encontro.

Com freeshop ou sem freeshop, ninguém volta do Chuí com a bagagem vazia. As memórias do caminho sempre serão presente numa fronteira que não é o limite entre dois territórios, mas a travessia mais próxima entre o destino de dois lugares.

 

 

Fonte: UOL
Foto: Divulgação