A sala-bunker da penitenciária de Rebibbia, em Roma, mal comportava as centenas de réus, advogados, procuradores, magistrados e jornalistas que acompanharam o início do maior julgamento da história italiana contra a máfia calabresa ‘Ndrangheta, na última sexta-feira (11).

A ação é considerada histórica. São 452 pessoas julgadas ao mesmo tempo: chefões, políticos, maçons e empresários. Na primeira audiência, os juízes levaram seis horas só para lerem os nomes dos réus e as 438 imputações contra eles. Advogados reclamaram que não havia espaço para todo mundo e era impossível manter o distanciamento social imposto pelo novo coronavírus.

De acordo com um levantamento de 2014 do instituto de pesquisa Demoskopika, a máfia calabresa está presente em 30 países, com 400 clãs e 60 mil afiliados. E teria faturamento de 53 bilhões de euros, equivalentes a R$ 330 bilhões ou a 3,5% do PIB italiano em 2013.

O processo foi instaurado a partir de uma operação, deflagrada em dezembro do ano passado, que teve a participação simultânea de 2.500 policiais e resultou na prisão de 330 pessoas em toda a Itália: prefeitos, ex-parlamentares, deputados estaduais, vereadores, empresários, policiais e chefões da máfia.

Entre eles está Luigi Mancuso, 55, que já cumpriu 19 anos de prisão de 1993 a 2012. Ele é o patriarca do clã Mancuso especializado no tráfico de drogas e com contatos diretos com os cartéis colombianos e os narcotraficantes espanhóis.

Atrás das grades acabou também o ex-senador, advogado e maçom Giancarlo Pittelli, do Forza Italia, partido do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Segundo os investigadores, Pittelli seria a “ligação entre dois mundos”, o criminal e o político-maçônico. Ele, que defendia vários mafiosos, era “capaz de manejar os processos graças a seus ambíguos contatos e relações de ‘amizade’ com os magistrados”. Numa interceptação gravada em seu escritório, ele disse: “O perigo nessa cidade é Gratteri”.

As acusações vão desde associação mafiosa, lavagem de dinheiro, ágio e extorsão a homicídio, ocultação de cadáver e sequestro de pessoa. Na denúncia de 13.500 páginas, a procuradoria reconstruiu a história criminal, as relações e os negócios da ‘Ndrangheta instalada na província de Vibo Valentia, na Calábria. Os autos do processo ocupam mais de 5 milhões de folhas e foram transportados em caminhões blindados para serem entregues aos denunciados.

 

Sala especial com 600 mesas será construída para o megajulgamento

A situação, porém, é temporária. No final de outubro, o julgamento será transferido para outra sala-bunker com capacidade para mil pessoas, que está sendo construída na cidade de Lamezia Terme, no sul da Itália. O novo local tem 3.300 m², capacidade para 350 réus, com 600 mesas equipadas com telefone, telas de computador e tomadas para os advogados, além de cadeiras para jornalistas e público.

A transferência para o novo tribunal não é apenas por uma questão logística, mas tem também significado simbólico. “Nos empenhamos ao máximo para encontrar uma solução adequada para que o julgamento, que promete ser muito importante no combate ao crime organizado, seja realizado em plena segurança, mas sobretudo na Calábria”, explicou o ministro da Justiça, Alfonso Bonafede.

O julgamento, apelidado de Rinascita-Scott, nasceu a partir das investigações iniciadas em 2016 e coordenadas por Nicola Gratteri, procurador de Catanzaro, na região da Calábria. Outros quatro acusados, entre eles o ex-senador Giancarlo Pittelli, optaram por um diferente rito processual e serão julgados a partir de 9 de novembro.

“Nesse processo há um altíssimo percentual de colarinhos brancos, da chamada zona cinzenta: são muitos profissionais, homens das instituições infiéis que permitiram que essa máfia hoje tenha entrado na administração pública”, afirmou Gratteri.

Pela quantidade de réus e pelos potenciais efeitos sobre a cúpula mafiosa, o caso já foi comparado ao maxiprocesso contra a máfia siciliana Cosa Nostra, que no final da década de 1980 julgou 475 pessoas e foi um dos golpes mais duros à organização criminosa.

 

Máfia é parceira do PCC na exportação de drogas do Brasil à Europa

A investigação mostrou que cocaína era importada do Brasil por meio de empresas especializadas no comércio de mármores, nióbio e manganês e era distribuída por várias regiões da Itália. A compra da droga era negociada por intermediários, verdadeiros corretores da cocaína, com os traficantes brasileiros. A maconha e o haxixe já eram importados da Albânia e ingressavam na Itália pelo porto de Bari, no sul.

Em 2018, uma investigação de quatro países europeus e da Polícia Federal revelou um elo entre a ‘Ndrangheta e o Primeiro Comando da Capital (PCC) para o tráfico internacional de drogas. De 2016 a 2018, duas toneladas de cocaína, avaliadas em cerca de R$ 1 bilhão saíram dos portos de Santos (SP), Salvador, Itajaí (SC) e Rio de Janeiro em direção à Europa.

Em junho de 2019, dois italianos suspeitos de serem o braço da ‘Ndrangheta na América Latina foram presos em Praia Grande, no litoral paulista. Nicola Assisi e seu filho, Patrick, estavam em uma lista de “foragidos perigosos” elaborada pela polícia italiana. O grupo mafioso controlaria 40% dos envios globais de cocaína, representando o principal esquema criminoso importador para a Europa.

 

Fonte: UOL
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