Ministro do esporte, cultura e artes da África do Sul, Nathi Mthethwa se comprometeu a lutar contra a “injustiça” da decisão que exige que a corredora Caster Semenya tome medicamentos redutores de testosterona para ser elegível para competir. Bicampeã olímpica nos 800 metros, ela perdeu nesta terça-feira a apelação no Supremo Tribunal da Suíça contra a decisão que a obriga a seguir as regras criadas pela Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) para diminuir os altos níveis do hormônio em algumas mulheres.

Mthethwa descreveu a decisão de rejeitar o recurso como “muito infeliz e ofensiva para os direitos humanos fundamentais das atletas classificadas como hiperandrogênicas”.

– Tanto o governo da África do Sul como a comunidade esportiva global sempre tiveram uma visão firme de que esses regulamentos são uma violação grosseira dos direitos humanos fundamentais de atletas hiper-femininas – disse ele, conforme relatado pela “Political Analysis South Africa”.

Caster Semenya na Diamond League — Foto: Francois Nel/Getty Images

– Portanto, apoiamos o apelo de Semenya e do Athletics South Africa (ASA) em sua disputa legal com o Atletismo Mundial. Como Governo da África do Sul democrática, um país conhecido por sua tradição de promoção e proteção dos direitos humanos básicos, juntamente com a ASA, estudaremos o julgamento e consideraremos várias opções e caminhos à nossa disposição em nossa campanha coletiva para combater esta injustiça – relatou.

Dona de 30 medalhas olímpicas e mundiais combinadas, a americana Simone Biles também defendeu a corredora sul-africana.

– Isto está errado em tantos níveis. Mais uma vez homens tendo controle sobre o corpo das mulheres. Estou cansada – postou a ginasta.

Semenya lamentou a decisão durante a semana.

– Estou muito desapontada com esta decisão, mas me recuso a permitir que a IAAF me drogue ou me impeça de ser quem eu sou. Excluir atletas do sexo feminino ou colocar nossa saúde em risco apenas por causa de nossas habilidades naturais coloca o atletismo mundial no lado errado da história – disse.

Caster Semenya é bicampeã olímpica nos 800 metros — Foto: Paul Childs/Reuters

As regras atuais forçam os atletas com transtornos do desenvolvimento sexual (DSD) a tomar medicamentos para reduzir clinicamente sua testosterona natural para menos de cinco nmol/L por um período contínuo de pelo menos seis meses e manter esses níveis continuamente pelo resto de sua carreira atlética. Somente sob essa política as atletas poderão competir em eventos femininos que variam de 400 metros e 1500m.

Semenya, campeã dos 800m nos Jogos Olímpicos Londres 2012 e Rio 2016, já havia recorrido anteriormente ao Tribunal de Arbitragem do Esporte (CAS), mas não teve sucesso. A decisão de agora é mais um golpe para a sul-africana, que não poderá defender sua coroa olímpica nos adiados Jogos de Tóquio 2020, a menos que tome os medicamentos e siga as regras da IAAF.

Associação Internacional das Federações de Atletismo insiste que as regras existem para proteger o esporte feminino e tem o aval do CAS, mas muitos as criticaram por infringir os direitos humanos. Um relatório das Nações Unidas publicado em julho criticou os regulamentos, que afirmava “legitimar efetivamente a vigilância de todas as mulheres atletas com base em estereótipos de feminilidade” e “negar aos atletas com variações nas características sexuais um direito igual de participar de esportes e viola o direito à não discriminação de forma mais ampla”.

Além dos títulos olímpicos, Caster Semenya é tricampeã mundial acima de 800 metros – ganhando medalhas de ouro em 2009, 2011 e 2017. A corredora sul-africana ganhou os títulos dos Jogos da Commonwealth nas corridas de 800m e 1500m na ​​Gold Coast 2018. Justamente pelo farto currículo, ela é a atleta mais impactada pelas regras relativas aos níveis de testosterona dos atletas de DSD.

Fonte: G1
Foto: Francois Nel/Getty Images